MANIFESTO UPGRADE DO MACACO

Por Emerson Pingarilho.


POR UMA LIBERDADE ONTOLÓGICA invocamos a superação do homem imerso na ilusão, individualizado e temeroso, desfazendo-se num eu-poeira, a multiplicar-se numa galáxia interior, o reflexo de seu cosmos. Aquele que se desintegra de suas virtudes, de seus defeitos e se torna vazio, amplo, infinito e sem limites, projeta-se em dimensões inimagináveis, todas elas possíveis. Façamos agora o upgrade do macaco em nome de um visionismo e uma revolução.


Vamos visionar muito além de uma mera identidade e um sentido claro para as coisas e ações no mundo, nada mais disso importa. Jogar-se além das coisas ditas, cada acontecimento é um novo mundo, pois a repetição só pode ser usada quando se adquire muito talento, eterno-retorno. Vamos revolucionar nosso cotidiano, sendo menos dogmáticos, menos mesquinhos, menos indiferentes, menos dominadores. Sejamos mais interativos com nossas naturezas e com toda a anti-natureza, que se transforma à medida que descobrimos toda a montagem que construímos na nossa mente do que pode “ser natural” no mundo.


Nossas ações-paixões devem procurar, dentro de nós mesmos, essas míseras certezas que se desfazem em pó quando DESINTEGRAMOS ALMAS CRISTALIZADAS, ásperas e amargas. Desorganismo, desordenado, desnorteado, desnaturado, DESNATUREZA. O puro potêncial aguarda seu momento, basta estarmos atentos aos nossos afetos.


Esse manifesto da era digital não está aqui para mostrar resultados ou visões de mundo, mas para manifestar uma AÇÃO ÍNTIMA, implantar dúvida na certeza daqueles que se protegem em supostas verdades, como um ato do cotidiano fora de seu contexto, num jogo de paradoxos.
Não existe limite para a interpretação humana. Vivemos uma desfragmentação da certeza, das verdades ditas nas ruas, nos colégios, nas faculdades. Instituições que estão se perdendo em complexas burocracias por falta de experimento, falta de emoção, falta de sensibilidade.

O meu e o seu corpo são o primeiro laboratório, vamos testar NOSSOS NERVOS e nossas capacidades de adaptabilidade do mundo e dos MUNDOS INTERIORES a cada um.


O risco maior de todos será a revelação da EXPERIÊNCIA INTERIOR, particular a cada um, não a espera de algo que se imagina, mas um movimento sem expectativas, para mergulharmos numa DIMENSÃO MAIS AMPLA adormecida em corações delirantes e mais VIOLENTA PELA SUA VELOCIDADE – 4D.


Se o medo nos aflige, eis um MISTERIUM TREMENDUM a espera da coragem de experimentar a vida, como o piscar de olhos. Em um momento você vê, em outro você vive. OLHAR É UMA AÇÃO ATIVA e implica o conceito dinâmico do auto-ser, o saber da mente como essência. O caos deve ser instituído antes da virada reflexiva do macaco e seu VIRUS ZEN BUDISTA. Um software ontológico que poderá criar novas perspectivas, novas harmonias e sonhos premonitórios. Nossas vidas dependem de várias outras vidas FAÇAMOS UM ATO DE AMOR!

 

AS TRÊS REVOLUÇÕES:

 

A PRIMEIRA REVOLUÇÃO COMEÇA NA CARNE.

 

Quando o abraço é mais forte que as coisas que nos preocupam, os músculos e a pele que esquentam os sentimentos guardados no seu coração. São essas pessoas que caminham e se cruzam sem se conhecerem, todas elas tem um impulso comedido, uma vontade de se libertarem, de quererem ser mais felizes. Depois que suas máscaras são tiradas e colocadas, tanto faz, suas maquiagens se tornam sublimes por não estarem mais escondendo, mas afirmando além do molde corporal, nós temos muitos corpos. Todos eles se ligam e desligam num sonho que é amortecido pela inocência do amor. Conectividade sensitiva que surge quimicamente, delírios que borbulham numa vontade de despressurização emotiva. Corpos explodem em pedaços muito largos e duros, são carcaças que se rasgam erotizadas e excitantes cansadas de esconder todos esses pensamentos sem sombra. Corpos atrativos que vibram numa mesma sintonia, um som grave de batida constante: máquinas frenéticas que expandem seus campos de força. Acaso e destino fazendo amor num pôr do sol.


O suor indica o metabolismo alterado e o desejo da conectividade, se abraçar já é suficiente para que nossos músculos fiquem mais aliviados de suas dores diárias então já existe uma solução para a primeira libertação do corpo. Existe a procura em forma de desejos, mas eles são para muitas pessoas como simulações de vida, um viés através de práticas químicas sem o coração guiando. A passagem da libertação do corpo exige mudanças no caráter NO MOLDE DA CASCA HUMANA.


Dedos que se alisam e intensificam o poder de contato entre os corpos, os pêlos eriçam em sincronicidade com as batidas cada vez mais rápidas do coração. Beijar e aquecer os músculos, possuir um prazer tão intenso tem o seu preço, a finalidade mortal do desejo, mais uma vez a ilusão do prazer eterno engana o homem e o mergulha numa lava quente de infelicidades e patologias. Penetrar no corpo como um agulhão que intensifica o motor biológico, não há uma felicidade maior que uma infelicidade? Só podemos responder a isso depois de vivermos isso. Não gosto de fechar meus olhos e imaginar o passado de uma maneira acinzentada e triste, esmigalha o coração e traz um gosto azedo. Existe esse mecanismo de conservação da memória que classifica nossas ações através de um código de ética maleável, muitas vezes é o arrependimento, outras vezes o orgulho, nenhuma das duas conserva a realidade do passado, por que já deixou de existir esse momento expressivo para se transformar em simulação imaterial. Good? Evil? Não seriam imagens mediadas pelo vício linear da TV? A fusão dos corpos exige proximidade através dos olhos que brilham com a curiosidade e se fundem como duas galáxias rompendo limites dimensionais no momento do transe e do gozo IMERSO NUM GIGANTESCO MAR AZUL DE DESEJOS E LIBERDADE.


São mãos que procuram uma geografia nova em corpos familiares ao desejo. As vezes dizer não implica um jogo de palavras de significados coesos, muitas vezes são vazias e fúteis, mas uma penetração na carne nova criando jogos mímicos a partir da inocente beleza que cativa e suga a atenção passando pelo sublime no ato do fazer, numa cosmologia de experiências simultâneas, e nesse momento me pergunto: a resposta da carne é a arma mais importante? Nesse mundo de distâncias sociais e muitas vezes através de leis que impedem a atração dos corpos a carne ainda é a primeira forma de revolução ontológica. Por isso existe esse uso limite do corpo: ele preenche os desejos, as paixões, as taras e as respostas dos espectadores. O que existe é uma doutrina do corpo onde os padrões simulam um teatro de colagens retiradas de ações-paixões do cotidiano para serem processadas e condimentadas com mais outras formas de atribuir necessidades através do desejo espetacular. Esse corpo é uma mentira! mas se ele existe talvez seja por causa do distanciamento dos corpos reais e embora os corpos simulados, aqueles que fazem suas performances na TV com enredos de tramas familiares ou uma cena de sexo anal, todos eles existem como conjunto apenas para o espectador, já que na verdade sua produção exige o esforço físico e uma montagem não-linear da realidade. A conectividade dos corpos existe e muitas vezes é feita a distância, o poder da realidade está na penetração do olhar e na proximidade da carne que fervilha – para os miseráveis dependentes da patologia carnal isso funciona como pornografia – não é disso que estamos falando aqui.


Excitação do corpo pela sede de conhecimento e não de simples satisfação, assim funciona a primeira revolução: o uso do corpo, dos músculos, da carne total como arma contra o distanciamento entre as pessoas. A relação espetacular é uma relação social entre pessoas mediada por imagens, elas se multiplicam transformando-se em totens fantasmas GIMME SOME FLESH.


LONGA VIDA A NOVA CARNE que penetra o ser em forma de agulhão, sentimento de desespero e realidade que competem com a situação do homem moderno, o esquizofrênico de ambulatório que possui seus objetos valiosos conquistados em muitas de suas caçadas a shoppings arquitetonicamente moldados como igrejas da idade média TUDO É ALTO E MONUMENTAL, nada disso pode ser comparado a carne real que define o desejo mais nobre e mais vil no ser humano, seja pelo uso limite do corpo ou pela apreciação artística.


O que pode deter essa massa orgânica potencialmente libertadora? Uma arma? Um Estado? Os corpos se multiplicam e se empilham em missas frenéticas, em festas regadas a ácido, ecstasy e maconha, em ruas, casas e apartamentos. Seguramente a carne infesta objetos e modelos arquitetônicos, expelem glândulas de suor, raiva e paixão O CORPO ESPIRRA SUA PRESENÇA.
Não é o punho cerrado que comprime os ossos do rosto numa briga simbolizando a repressão que pode ser chamado de arma, mas a liberdade do uso do corpo como arma emancipadora. Toque nos meus dedos, no meu rosto, nos meus lábios, no meu peito, assim como a combinação do perfume com o corpo. Não existe ilusão na proximidade dos corpos, contanto que eles não sejam mediados por imagens ou por desejos instruídos por imagens do fetiche – hedonismo vagabundo e com objetivos de consumo. Não se pode consumir a carne simplesmente como produto pois a experiência é o mais importante, como um fluxus sexual: o momento é tudo, ele não pode ser pré-determinado nem planejado, deve ser executado.


O momento da realidade é UM, o corpo é um e a experiência como intermezzo de prazer, de sublimação do antagonismo pré-existente entre os corpos também é um, pois os corpos não devem se separar mas adquirir experiência. Destruição do tempo espetacular, ser novo, ser velho que todos esses medos encarnados em Fausto vão tomar no cu! Toda vez que nos prendemos na definição temporal o medo da morte surge, como se não tivéssemos tempo suficiente para fazer o que queremos. Medo resumido: pessoas olhando serenamente como ovelhas num parque de diversões de fetiches seus objetos de desejo, perdendo-se em imaginações futuras sem o menor objetivo relevante a não ser o da imagem residual como força de identidade – uma busca que nunca vai terminar bem por levar o homem a fantasia ligada pela sua imaginação de duração eterna separada do corpo, que tem sua finitude marcada – no mundo de hoje, não podemos deixar nos levar por esperanças que nem mesmo possuem alguma garantia, são brinquedos midiáticos que nos infantilizam.


Pense no boi processado e ingerido por você, estará lá o fim?

 

A SEGUNDA REVOLUÇÃO PERFURA OS OLHOS.

 

E ele poderia dizer que não se importava, que estava mentindo com seu olhar sem direção, disse que não podia ver a beleza se não pudesse sentir mais do que enxergar. Não era apenas essa superfície doce e suave, era o aroma que mergulhava sua coragem num turbilhão de incertezas.


Através desses olhos fixos e brilhantes abre-se um precipício de onde não se pode escapar. Não seria seu coração cedendo as artimanhas do cotidiano? Onde uma pessoa o prende dentro de uma conversa magnética e o transporta para dentro da escuridão da íris, lá onde não se pode ver que forma tem todos esses afetos que tomam seu corpo como um casulo. São corpos atrativos.


Abismos que se unem através de uma conexão imaterial. Dos meus olhos vejo no fundo dos seus olhos uma galáxia particular escondida. Uma espécie de buraco negro que suga minha curiosidade para dentro de um corpo alheio. Não é apenas aquilo que olho, mas o que me observa mutuamente explorando minhas carnes e meu caráter.


Eu deveria estar preocupado quanto a máscara que cobre meus músculos através desse caráter? Talvez devesse ficar preocupado quanto a maneira que olho os objetos ao meu redor já que a primeira maneira de libertação vem da carne, a visão contempla e projeta a arquitetura sustentada pelos ossos da experiência. A experiência do ver para muitos termina no tocar. Aqui procuramos simplesmente ver, seja pelos olhos ou por outros sentidos o amadurecimento da percepção que vem através do aprendizado do olhar. Como numa câmera de vigilância, quantas horas são gastas de material gravado para que se tenha um movimento relevante dos acontecimentos gravados? As provas através da imagem são ficções elaboradas através de incontáveis horas de submissão do voyer. O efeito que borbulha em metabolismos está no cruzamento do olhar. Ele não pode ser gravado, mas vivido. Imaginemos caminhar no centro de uma cidade grande, passos largos, corpos em profusão, vozes que emitem transes coletivos aos pedestres.


Olhar nos olhos do desconhecido transmite o contato em forma de agulhão, fere a pessoa e ela se sente de alguma maneira excluída da massa de corpos que passam diariamente por esse centro urbano.


O FELINO ANCESTRAL MIRA OLHOS NOS OLHOS.


Ela sente um tipo de evidência, mas não como geralmente pedestres costumam olhar os outros com seus olhos desejantes e vulgarizados pelo espetáculo, ser visto como alguém além da massa de corpos e ao mesmo tempo olhar quem o observa. Um alguém que encontra outro alguém. Não se trata de uma simples experiência ocular. Trata-se do fim da cegueira quanto a visão real. Significa enxergar esse vazio que separa os corpos, as paixões e os desejos incrustados em manuais de beleza e submissão. Perceber todos os jogos de submissão sociais é a primeira forma de aprender sobre o poder do olhar, nada de paranóias e perseguições – já que elas próprias são produzidas por quem vê – mas a importância de delinear (mas não definir) as ações cotidianas. Qualidades como beleza, atrativo que suga o olhar de imediato, pode ser um detalhe, qualquer detalhe. Ele expande para o resto do corpo e é sugado pelos olhos novamente, tendo uma sensação sublime da comoção. Existe a visão química, mas também não é dela que estamos falando, já que a própria visão no dia-a-dia pertence a um tipo de combinação química elaborada por quem vê e mediada por alguém mais influente nos momentos de descanso.


Esses olhares são induzidos, são permeados de significados tautológicos e funções morais. O olhar revolucionário perfura os olhos e desmistifica a carne. Não há mais aquela forma plástica que ostenta uma estética vigente – a do supercorpo – mas a valorização do corpo em si, como uma fonte de energia única, que precisa ser explorada e conhecida por quem vê e por quem é visto. Não se pode mais deixar os olhos serem treinados pela mente puramente mecânica.


O olhar tem de ser autônomo até que as órbitas sejam expulsas do próprio corpo para que não se enxergue mais apenas com os olhos. O corpo como percepção pura, mergulhado numa interatividade de experiências diárias. “Se teu olho te atrapalha, lança-o de ti”.


A falta de tato entre as pessoas afeta o olhar, como pessoas seguras de si que olham outras pessoas mas não vêem nada, apenas a si mesmos, percebe-se isso no momento da conversa onde palavras não são mais que estrume jorrado nos ouvidos do outro, palavras de ordem em forma de agrado: típico discurso narcisista. São informações que se confundem antes mesmo de serem percebidas, são mastigadas e enfeitadas para que possamos consumi-las sem nenhum tipo de sofrimento. E que tratamento é esse que não deixa o ser humano viver? Consumir? E ainda por cima sem nenhum tipo de sofrimento? Olhar um ente querido no momento da sua morte, não há maneira para descrever o sofrimento que isso pode trazer, poderiamos até falar dos traumas que daí surgem, mas isso não importa agora.


Perceber é essencial, porém mais importante ainda é perceber o que é real, a experiência direta traz o aprendizado satisfatório para se viver pois não há punições simuladas, INSERT COIN REAL LIFE sua vida num jogo de muitas escapatórias e nenhuma solução. Como o jogo do olhar com os animais, praticado por africanos a fim de espantar os leões. O homem encara o felino de frente e o olha fixamente transmitindo agressividade e segurança, o leão não encara o jogo e se sua fome não é maior que sua coragem, ele desiste e vai embora. Muitos corpos se ofendem com o olhar, com a relevância que ele transmite. Ele está a me observar, o que tenho eu? São muitas as sensações que despertam esses dois pequenos buracos, que são passagens para outros universos iluminados pelas pequenas órbitas.


Uma passagem de luz que é transmitida para uma outra dimensão, imaterial e que fornece o magnetismo necessário para que as pessoas se aproximem, se toquem, se despertem. Embora o olhar possa induzir o tocar, deve-se compreender que o ciclo não termina aí, não se trata de uma experiência puramente material, ela desperta a subjetividade das pessoas a fim de explorar seus mundos imateriais. Diferente do voyer que isola o pensamento em si mesmo, satisfeito de si e de sua grandiloqüência estúpida por ser incapaz de transmitir sua subjetividade através do olhar, ele não transmite, não se conecta, apenas rouba e vampiriza, ele é dependente de seu desejo patológico. Não se trata de eliminar o olhar egoísta, não é nada fácil disso sabemos deixar de olhar pra aquilo que nos agrada e nos preenche de uma felicidade e uma satisfação indescritíveis.


O primeiro movimento é o do corpo, a busca da emancipação, mas depois através dos olhos TURN AROUND TURN AROUND vem a segunda revolução para perfurar e preencher nossas angústias e medos latentes. Olhe pra mim e me diga, existe mesmo uma sensação forte no olhar?
Depois desse abismo perder em distância material ele se torna imaterial, pois não se trata mais de ver o que temos fora uns dos outros, mas o que temos na mais pequena delicadeza, nos interstícios dos movimentos das mãos, dos braços, das pernas, do queixo, das palavras, dos sentimentos. O olhar afunda numa percepção maior, somos constantemente percebidos e construídos em mentes alheias através da lembrança. Vemos as coisas no mundo e cada vez que a vemos de novo nós a modificamos, isso porque os momentos obviamente são diferentes embora o objeto esteja lá imóvel. Nós a modificamos porque elas nos modificam pois não são objetos únicos, quer dizer, não vemos apenas um objeto, eles estão ligados uns nos outros numa construção que gera campos de força.


Uma arquitetura conjunta e maleável disposta materialmente pela conjuntura do real e imaterialmente pela nossa percepção que une emoções, raciocínio e delírio. O olhar revolucionário significa explorar as percepções que se tornam presentes na nossa mente transmitindo-as para a realidade. Tornar-se real.

 

A TERCEIRA REVOLUÇÃO SÃO AÇÕES-PAIXÕES.


O homem não deve expulsar o macaco de dentro do corpo, deve deixá-lo livre correndo por parques temáticos, divertindo-se com suas necessidades sexuais e lúdicas como todo animal que vive dentro de seus instintos e seus territórios na natureza. Mas o homem difere desse macaco pois ele tem consciência da transformação do mundo, tanto que historicamente podemos observar as mudanças sociais e intelectuais que passamos, nada mais óbvio.


No entanto pensemos nos Cães de Canaã, uma das primeiras gerações desse belo animal que vive conosco como companheiro tribal. Muitos estudiosos atribuem a esse animal, o cachorro, uma das grandes viradas na evolução do homem, a ascensão do homo sapiens. O cão diversificou a linguagem no homem, ele não é o ser domesticado que tanto se prega, a domesticação foi mútua, ele ampliou a forma do homem caçar e mesmo lutar com outras gerações de humanos primitivos, ele se fixou na casa do homem convivendo com as pessoas dentro de casa. Esses mesmos estudiosos dizem que o cão aprendeu com esse convívio a imitar o olhar da criança tanto que sua ligação com a parte maternal da família se tornou mais forte (o olhar doce e meigo do cão quando é repreendido ou quando sente fome), ele é um animal que torna mútua nossa vida com natureza, aí está a chave para a terceira revolução, a interação do homem com o mundo aprendendo a regenerar as relações primitivas com a natureza ao mesmo tempo não podendo negar a condição do mundo contemporâneo e a tecnologia que permeia nosso cotidiano. Racionalismo e intuição brigam pela soberania dentro do homem, se não se trabalha os dois ainda estaremos fracassando quanto a esse dualismo do corpo/mente de Descartes.


As ações-paixões são exercícios do animal interagindo com o homem e vice-versa, da intuição permitindo de possamos nos libertar dessa funcionalidade cotidiana e do racionalismo entendendo sua limitação dando espaço para essa intuição latente em nós. Ele se levanta de manhã, toma banho, se perfuma, penteia o cabelo, ajusta sua imagem residual e vai para o trabalho funcionar dentro de sua função.

Trabalha, trabalha e trabalha.


A noite desperta o animal dentro de si e vai brincar em parques temáticos, sejam elas festas, bares etc. Aí se vê o homem fugindo de sua condição como homem, sendo máquina pura de dia e sendo um animal tosco de noite, alguém ainda tem dúvida do porque se vê tanta bebedeira e destruição nas noites urbanas? Não adianta redes de TV, jornais sensacionalistas e padres engravatados mostrarem de maneira hipócrita as pessoas de noite tomando seus entorpecentes tentando buscar uma justificativa para a violência urbana, pois eles mesmos são consumidores de entorpecentes, seja pelas doses maciças de cafezinhos diários, seja pelos remédios emagrecedores – anfetaminas corpolátricas – seja pela imagem de Jesus que causa frenesi e busca pela cura divina, tudo não passa de um escapismo através do outro ilusório. Falta prestar atenção no real, como as pessoas que amamos com seus defeitos e valores positivos, assim também deveríamos prestar atenção nas pessoas que não conhecemos, não pela sua beleza temporal, mas pela sua condição humana, a de sermos semelhantes e unidos nessa sociedade muitas vezes pragmática. Da mesma forma existe a natureza, relegada a uma mercadoria pela industria turística, chega desse espelho mágico que sodomizou Branca de Neve: “espelho, espelho meu...”, ficar olhando para si mesmo procurando uma justificativa para se orgulhar ou mesmo procurar se sentir seguro é um sintoma de fraqueza, não se pode buscar apenas dentro de si formas de melhorar o mundo assim como também não se pode tentar buscar isso de maneira puramente coletiva. Essa busca é interativa, seja ela através do contato com outra pessoa, com a natureza ou mesmo com outros animais, a busca na verdade nunca termina, ela está encarnada na cobra que morde o próprio rabo, ciclicamente nos deparamos com os mesmo problemas.


Chegamos a um cume das realizações de libertação ontológica do homem, primeiro a carne prostituta em busca da emancipação, segundo a percepção penetrante na alma alheia como reflexo a condição de si no mundo e em terceiro o movimento dos corpos, sejam eles materiais ou imateriais. A terceira revolução implica mais do que observar, refletir ou conhecer, significa transformar a carne e o espírito, o fantasma da máquina deve se tornar uma forma que seja visível e invisível, deve deixar de existir apenas na imaginação pra se tornar real, essa transformação só pode acontecer através da experimentação. Porém o que queremos dizer com experimentação? Significa que a experiência ainda é a chave para a construção (e conseqüentemente uma desconstrução do que existia anteriormente em si mesmo) de um ser humano mais dinâmico, o upgrade do macaco começa a fazer efeito a medida que nos tornamos mais humildes em relação aquilo que conseguimos aprender e criar dentro desse mundo.


Num primeiro momento temos que entender: os ensinamentos aprendidos no dia-a-dia não podem ser considerados tautologias, isto é, não são regras prontas iguais a que aprendemos na infância escolar.


O que você aprende serve apenas para você, embora a experimentação de que falamos seja dependente desse conhecimento primário, é a partir daí é que devemos procurar criar uma espécie de jogo de entendimentos. O emprego da linguagem depende de um contexto específico (circunstância), por isso questões como verdade e falsidade não podem ser determinantes, a medida que aprendemos devemos procurar nos desvencilhar dos modelos pré-moldados e partir para uma superação das regras sociais existentes. Ninguém aqui está querendo fazer algum tipo de apologia a violência ou ao roubo, nada dessas patologias vagabundas. Devemos entender que as regras sociais são regras de consentimentos, nos mostramos a favor de certas relações mediante um preço a pagar devido a resposta que podemos obter a partir disso. O problema está em nos fixarmos nas regras sociais, dessa maneira todas as relações se superficializam pois deixamos de nos experimentar para automaticamente usarmos regras prontas de convívio.


Ações-paixões são movimentos e misturas de corpos, são transformações que ampliam a condição humana nessa sociedade tecnocrática. Homem e animal juntos, pois nunca estiveram separados, mesmo que retrocedamos na história e vejamos todas essas baboseiras de regras de etiqueta, superproduções de vestimentas e doutrinas educacionais, nada disso consegue suprimir a necessidade do macaco urbano em superar suas dificuldades diárias geradas pela angústia. Estar apto a lutar pela sua liberdade interna (fantôme), estar disposto a libertar seus sentimentos por completo sem que ninguém seja suficientemente cretino para julgar o que não pode compreender por inteiro. Quem eles (quaisquer que sejam) pensam que são para dizer o que eu sinto ou o que eu devo fazer? Se eu vivo nesse mundo e partilho das mesmas fragilidades físicas, posso compreender em parte o que se passa ao meu redor, mas isso não determina que eu seja senhor das ações totais no mundo, não posso julgar ninguém senão a mim mesmo, limitado por ser arrogante e cego o suficiente para afastar de mim os mendigos e faxineiros, logo eles que limpam minha merda e fazem do mundo um lugar menos fedorento pela podridão condimentada nas minhas tripas, regurgitada e expelida em valas de cerâmica branca. Se eu sou o macaco do futuro, como todos os outros irmãos e irmãs no mundo, devemos olhar para nós mesmos sem essa pretensão mágica de tentarmos nos transformar numa imagem fantástica de beleza cosmética, pois sem esses atributos, somos pálidos e decrépitos, somos tristes e frustrados sempre atrás de novas matérias a fim de nos renovarmos visualmente. Se toda essa pompa é uma necessidade virtual e sua não-realização nos frustra é porque não estamos sendo humildes o suficiente para entendermos que a beleza parte de dentro da máquina, esse corpo mole que nos sustenta. O espírito que envolve nossos corpos é uma dupla ação da beleza, ela sustenta imaterialmente nossa vontade de amar, de nos encontrarmos em outros corpos, de querermos nos misturar num êxtase divino e materialmente por termos nossas afinidades biológicas (as ancas, os pescoço, os braços, as pernas, o sorriso, o olhar ou mesmo o jeito de segurar uma bolsa). Além dessas formas que compreendem atributos de nascença temos também nossos brinquedos: perfumes, roupas, cortes de cabelo, piercings...


Eles são como temperos na nossa alimentação da experiência, mas não são tudo, eles valorizam os jogos de sedução e de certa forma, eu até arriscaria dizer, valorizam nossa identidade, embora não sejam todos que possam usufruir dessa experiência estética. No mundo capitalista os recursos sempre se dão pela posse, conseqüentemente aqueles que podem se sujeitar aos jogos de sedução tão propagados em revistas modernas e redes de TV tem de obter posses para jogar. Felizmente isso é apenas uma visão unilateral levada as últimas conseqüências pelo mass-media, talvez pelo fato de eu mesmo ser um macaco ocidental. Existem aqueles que criam seus próprios termos estéticos, por isso para a nossa felicidade podemos acreditar concretamente que julgar aparências é apenas um jogo de circunstâncias, como foi dito antes sobre a linguagem: depende de um contexto específico.


Mas para as ações-paixões amar é acima de tudo o principal tempero para o espírito. Não importa que maneira esse amor se manifeste, experimentar é acima de tudo a chave para a redenção, um encontro de galáxias emocionais de diferentes lugares, olho para você e sinto esse amor, essa paixão, essa vontade de conhecer mais e mais. Mesmo que eu já conheça você há muito tempo.


Quero me juntar as suas experiências e criar... e talvez essa seja a palavra que procuramos para transmitir um sentimento sublime: CRIAR CRIAR CRIAR.


Ações-paixões são fruto de uma interminável necessidade de fundirmos experiências, seja através de uma longa conversa, seja pelo abraço forte. A carne influi na nossa interação dinâmica, não é a toa que todo esse sistema espetacular midiático se apóie tiranicamente na carne, expondo a nudez ao nível mais predatório, pode-se ficar rico dessa forma. Essa estratégia é apenas uma maneira de nos transformarem em puros consumidores (pois já não existe mais pátria, nem raça, nem credo, tudo é resumido pelo consumo). Isso é pouco, muito pouco para o ser humano. Somo feitos de carne, apodrecemos diariamente disso sabemos, o que não podemos esquecer são das forças que atraem essas carnes, como isso se chamaria? espírito?


Do que quer que seja chamado ele se alimenta dessa experiência interativa, com você, com os outros, com a natureza, com o mundo.

A busca da harmonia...


Por isso experimentamos até o limite dos sentimentos o que é viver, seja pela felicidade, pelo sofrimento, pela amargura, pela paixão, estamos sempre e para sempre experimentando viver.

 

Dedicado a Irmandade.

04/12/2002

 

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Lyotard, O Inumano.
“Que poderemos chamar de humano no homem? A miséria inicial de sua infância ou a sua capacidade de adquirir uma segunda natureza (inumana) que graças à língua, o torna apto a partilhar da vida comum, da consciência e da razão adultas?”

Clement Rosset, A anti-natureza.
"Quando teremos 'desdivinizado' completamente a natureza" (Nietzsche). O objetivo de Rosset é duplo: primeiro, demonstrar que a idéia de natureza não passa de uma ilusão exigida pelo desejo humano. Ilusão que – apesar das aparências indicarem o contrário – a sensibilidade moderna teria conservado sob novas formas, das quais a mais insistente seria o historicismo. O segundo objetivo é opor a esta idéia, que ao mesmo tempo "divinizaria" e depreciaria a existência, a noção de um mundo como artifício onde o que existe se confundiria com o que é fabricado.

Ernest Becker, Negação da morte.
“Aqueles cujo Eu e cujo Corpo se acham em um relacionamento muito tênue, mas sem embargo conseguem ir avante sem se verem submersos pelas energias e emoções interiores, por fantásticas imagens, sons, medos e esperanças que não cabem neles... ele carece de um Eu e de um Corpo seguramente unificado”.