| Por uma vontade inominável, homem que
se diz humano, o inumano , vai cair pela falência de seus
órgãos, O ORGANISMO É CONTRA A REPRESENTAÇÃO
DO UNO esses órgãos se desintegrarão de
seu corpo, sucumbirão pela ineficiência de suas
funções. Assim é cada pessoa de nosso cotidiano,
presa na sua jaula burocrática, ela precisa implodir
sua alma e iniciar uma sabotagem artística UMA DESTRUIÇÃO
DE SUA PRÓPRIA NATUREZA, A HUMANA necessária para
se sentir menos controlado, menos escravo, menos vigiado, menos
nervoso, menos penoso.
O homem só é homem E SÓ É UM
MONSTRO porque carrega consigo uma praga crivada em sua espinha,
à vontade de onipotência, esse mal do ego, que
dá nome às coisas no mundo, que controla todas
as formas, TUDO QUE EXISTE
NO MUNDO ESTÁ ETIQUETADO os significados e nos enjaula
no seu universo onipotente e (de)nominador EXTERMINADOR.
O homem, esse babuíno aperfeiçoado, está
se deteriorando em suas paixões e desejos simulados,
é necessário para sua sobrevivência um
software, uma forma de não sucumbir na pobreza de sua
cultura, de sua mendigagem. O upgrade do macaco.
POR UMA LIBERDADE ONTOLÓGICA a superação
do homem cristalizado no individualismo extremo para o eu-poeira,
O VÍRUS DE MEPHISTO o homem que se desintegra de suas
virtudes, de seus defeitos e se torna vazio. Pronto para estabelecer
um elo maior com a mecanosfera MECANISMO DO MUNDO, A INTER-RELAÇÃO
DO HOMEM COM O MUNDO, TÃO INACEITÁVEL PELA IGNORÂNCIA
E ASPEREZA DO EGO.
Um manifesto da era digital dividido em partes fractais narrando
de forma não-linear fragmentos de momentos da historia
humana, não se trata de documentários nem análises
claras, trata-se de sentimento puro. Raiva, angustia, temor
(e tremor), solidão, amor, desespero CHACINA, MALÁRIA,
DESILUSÃO e outras ações ligadas a sensações
extremas. Uma forma irregular e medíocre de mostrar
UM MUNDO TECNOLÓGICO E SUPERCONTROLADO na sua própria
natureza viral, um amontoado de montagens fractais de um universo
solipsista A APOTEOSE DA CARAPAÇA APODRECIDA DE WILHELM
REICH. O mundo do eu sucumbe com a colisão de outros
mundos, outras experiências relativas a paradoxos de
vida comum, a violência humana. A tentativa aqui é
mostrar de uma maneira visceral (e cada peça desse
jogo a seu modo), uma realidade crua do mundo UMA CARNIFICINA
TRANSFÓBICA ONDE NINGUÉM ESTÁ EM SEGURANÇA.
Onde há fantasia há máscaras MASCARADO
O HOMEM ENFURECE-SE E PROTEGE-SE NO ANONIMATO, de uma realidade
maior, de uma realidade onde morfina dificilmente amorteceria
dores familiares, dores de amantes, dores de abandonos, de
todos os tipos DORES MUITAS DORES, na guerra, no cotidiano
urbano de uma metrópole, numa região remota.
No mundo da TECNODESINTEGRAÇÃO a identidade
se torna um jogo de máscaras numa dimensão simulada.
Solidão e carapaças de proteção
cobrem o corpo, medo, vergonha, dissimulação,
controle UMA FORMA DE PODER INDIRETO. Para além do
bem e do mal o múltiplo se espalha de maneiras incorpóreas
COMO UM VÍRUS LINGUAGEM, criando para si mesmo múltiplas
identidades.
O homem se perde em milhões de informações
que camuflam a reflexão, não se consegue pensar
mais com aparelhos ligados num ambiente, pois o que se absorve
dos mass media são palavras de ordem AQUELAS VOZES
ESQUIZOFRÊNICAS QUE DE VEZ EM QUANDO PERÂMBULAM
PELA SUA AGONIA, dominação por super estruturas
de informações que deslizam sobre a cultura
individual. Pré-conceitos, fórmulas, receitas,
salmos, leis todas as maneiras que se pode nomear as coisas
no mundo. O homem é uma caixa de dados para o Estado,
E UM CONSUMIDOR PARA O SISTEMA SOCIAL SEM NAÇÃO
SEM CREDO SEM NADA, PURO POTÊNCIAL com seu número
de roupas, cartões de crédito, número
de identidade, seguro social, número carcerário.
DESORGANISMO DESORDENADO DESNORTEADO DESNATURADO DESNATUREZA.
Emoções em fragmentos, todas essas memórias
são história em nível celular, em nível
corporal, em nível intelectual, cultural, psicossomático.
Não importa CADA MUNDO E MICROUNIVERSO TEM UMA HISTÓRIA.
O que importa é que se esteja aberto para receber diferentes
informações desordenadas FRAGMENTADAS, muitas
vezes pouco providas de lógica.
In a highly functioning state the mind can perform as an
integrated collaboration of multiple identities that are working
together to cooperate and explore, shining the light of knowledge
into the subconscious mind, actually welcoming it to become
conscious.
Façamos agora o upgrade do macaco em nome de uma negação
e uma revolução. Vamos negar uma identidade
e um sentido claro para os objetos e ações no
mundo, nada mais disso importa NÃO QUEREMOS SER NÚMEROS
DENOMINADOS MAS AUTÔNOMOS, o nome de uma rua ou o número
de pessoas com quem já se relacionou. Vamos revolucionar
nosso cotidiano, sendo menos dogmáticos, menos mesquinhos,
menos indiferentes, menos dominadores. Sejamos mais interativos
com nossas naturezas e com toda a anti-natureza , que se transforma
em natureza à medida que descobrimos toda a montagem
que construímos na nossa mente do que pode “ser
natural” no mundo.
Nossas ações-paixões devem procurar
interpretar se auto-interpretando CRITICISMO DESINTEGRADOR
DE ALMAS CRISTALIZADAS, esse manifesto da era digital não
está aqui para mostrar resultados ou visões
de mundo, mas para manifestar AÇÃO (implantar
dúvida), como um ato do cotidiano fora de seu contexto,
num jogo de paradoxos.
Cada universo solipsista da mente de cada ser humano está
em jogo, desde de lembranças da infância como
regras de controle e conduta num núcleo familiar DESTRUIÇÃO
DA SEGURANÇA EMOTIVA E PESSOAL É O PRIMEIRO
LIMITE A SER ROMPIDO. E o questionamento deve vir daquilo
que nos dá mais segurança na vida, nossas famílias,
nossos santos, nossas esperanças, nada deve ser negligenciado,
todas as formas de conhecimento possuem sua autonomia no ato
do saber TODAS ESSAS VERDADES QUE CONTAM NOSSOS PAIS PADRES
TIOS FAMILIARES VIZINHOS E MUITOS OUTROS TRANSEUNTES DE NOSSA
EXISTÊNCIA PODEM SER EQUÍVOCOS DE INTERPRETAÇÃO
DO MUNDO não existe limite para a interpretação
humana. Porém com a chegada pós-humanista vemos
uma desfragmentação da certeza, das verdades
ditas nas ruas, nos colégios, nas faculdades. Instituições
que estão se perdendo em complexas burocracias e falta
de experimento E EXCESSIVOS SOFISMAS em suas almas. O CORPO
É O PRIMEIRO LABORATÓRIO vamos colocá-lo
para funcionar como tal, vamos nos submeter a testes ontológicos,
vamos ser cobaias de nós mesmos, esqueçam a
escravidão dos outros seres VAMOS TESTAR NOSSOS NERVOS
E NOSSAS CAPACIDADES DE ADAPTABILIDADE DO MUNDO E DOS MUNDOS
INTERIORES A CADA UM.
O risco maior de todos será a revelação
da experiência NÃO A ESPERA DE ALGO QUE SE IMAGINA
MAS UMA DIMENSÃO MAIS AMPLA E VIOLENTA PELA SUA VELOCIDADE
como o piscar de olhos: “o olhar faz com que o ver e
o objeto visto se percebam mutuamente, não como mera
identificação mas tornando-se conscientes de
si, ou ainda de sua função circunstancial. OLHAR
É UMA AÇÃO ATIVA e implica o conceito
dinâmico do auto-ser, o saber da mente como essência”.
O caos deve ser instituído antes da virada reflexiva
do macaco e seu VIRUS ZEN BUDISTA. Um software ontológico
que poderá criar novas perspectivas para a mente. Um
suicídio do antigo eu para um eu-poeira em direção
ao uno coletivo, nossas vidas dependem de várias outras
vidas, a carnificina do eu é um imperativo.
CARNIFICINA É UM ATO DE AMOR.
04/12/2002
As três revoluções.
por Emerson Pingarilho
A primeira revolução começa na
carne.
Quando o abraço é mais forte que as coisas
que nos preocupam, os músculos e a pele que esquentam
os sentimentos guardados no seu coração. São
essas pessoas que caminham e se cruzam sem se conhecerem,
todas elas tem um impulso comedido, uma vontade de se libertarem,
de quererem ser mais felizes. Depois que suas máscaras
são tiradas, que suas maquiagens se tornam sublimes
por não estarem mais escondendo, o fim do molde corporal,
temos muitos corpos. São corpos que se ligam e desligam
num sonho que é amortecido pela inocência do
amor.
Conectividade sensitiva que surge quimicamente, corpos que
borbulham numa vontade de despressurização emotiva.
Corpos explodem em pedaços muito largos e duros, são
carcaças que se rompem esquizofrenicamente cansadas
de esconderem todos esses pensamentos libertários.
Corpos atrativos que vibram numa mesma sintonia, um som grave
de batida constante: máquinas frenéticas que
expandem seus campos de força. O suor indica o metabolismo
alterado e o desejo da conectividade, se o abraçar
é suficiente para que nossos músculos fiquem
mais aliviados de suas dores diárias então já
existe uma solução para a primeira libertação
do corpo. Existe a procura em forma de upgrades menores, mas
eles para muitos são como simulações
de upgrades, através de práticas químicas,
a passagem da libertação do corpo exige mudanças
no caráter NO MOLDE DA CASCA HUMANA.
Dedos que se alisam e intensificam o poder de contato entre
os corpos, os pêlos eriçam em sincronicidade
com as batidas cada vez mais rápidas do coração.
Beijar e aquecer os músculos, possuir um prazer tão
intenso tem o seu preço, a finalidade mortal do desejo,
mais uma vez a ilusão do prazer eterno engana o homem
e o mergulha numa lava quente de infelicidades e patologias.
Penetrar no corpo como um agulhão que intensifica o
motor biológico, não há uma felicidade
maior que uma infelicidade? Só podemos responder a
isso depois de vivermos isso. Não gosto de fechar meus
olhos e imaginar o passado de uma maneira acinzentada e triste,
esmigalha o coração e traz um gosto azedo. Existe
esse mecanismo de conservação da memória
que classifica nossas ações através de
um código de ética maleável, muitas vezes
é o arrependimento, outras vezes o orgulho, nenhuma
das duas conserva a realidade do passado, por que já
deixou de existir esse momento expressivo para se transformar
em simulação imaterial. Good? Evil? Não
seriam imagens mediadas pelo vício linear da TV?
A fusão dos corpos exige proximidade através
dos olhos que brilham com a curiosidade e se fundem como duas
galáxias rompendo limites dimensionais no momento do
transe e do gozo IMERSO NUM GIGANTESCO MAR AZUL DE DESEJOS
E LIBERDADE. São mãos que procuram uma geografia
nova em corpos familiares ao desejo. As vezes dizer não
implica um jogo de palavras de significados coesos, muitas
vezes são vazias e fúteis, mas uma penetração
na carne nova criando jogos mímicos a partir da inocente
beleza que cativa e suga a atenção passando
pelo sublime no ato do fazer, numa cosmologia de experiências
simultâneas, e nesse momento me pergunto: a resposta
da carne é a arma mais importante? Nesse mundo de distâncias
sociais e muitas vezes através de leis que impedem
a atração dos corpos a carne ainda é
a primeira forma de revolução ontológica.
Por isso existe esse uso limite do corpo: ele preenche os
desejos, as paixões, as taras e as respostas dos espectadores.
O que existe é uma doutrina do corpo onde os padrões
simulam um teatro de colagens retiradas de ações-paixões
do cotidiano para serem processadas e condimentadas com mais
outras formas de atribuir necessidades através do desejo
espetacular . Esse corpo é uma mentira! mas se ele
existe talvez seja por causa do distanciamento dos corpos
reais e embora os corpos simulados, aqueles que fazem suas
performances na TV com enredos de tramas familiares ou uma
cena de sexo anal, todos eles existem como conjunto apenas
para o espectador, já que na verdade sua produção
exige o esforço físico e uma montagem não-linear
da realidade.
A conectividade dos corpos existe e muitas vezes é
feita a distância, o poder da realidade está
na penetração do olhar e na proximidade da carne
que fervilha – para os miseráveis dependentes
da patologia carnal isso funciona como pornografia –
não é disso que estamos falando aqui. Excitação
do corpo pela sede de conhecimento e não de simples
satisfação, assim funciona a primeira revolução:
o uso do corpo, dos músculos, da carne total como arma
contra o distanciamento entre as pessoas. Como Debord nos
fala sobre o espetáculo: a relação espetacular
é uma relação social entre pessoas mediada
por imagens, elas se multiplicam transformando-se em totens
fantasmas GIMME SOME FLESH.
LONGA VIDA A NOVA CARNE que penetra o ser em forma de agulhão,
sentimento de desespero e realidade que competem com a situação
do homem moderno, o esquizofrênico de ambulatório
que possui seus objetos valiosos conquistados em muitas de
suas caçadas a shoppings arquitetonicamente moldados
como igrejas da idade média TUDO É ALTO E MONUMENTAL,
nada disso pode ser comparado a carne real que define o desejo
mais nobre e mais vil no ser humano, seja pelo uso limite
do corpo ou pela apreciação artística.
O que pode deter essa massa orgânica potencialmente
libertadora? Uma arma? Um Estado? Os corpos se multiplicam
e se empilham em missas frenéticas, em festas regadas
a ácido, ecstasy e maconha, em ruas, casas e apartamentos.
Seguramente a carne infesta objetos e modelos arquitetônicos,
expelem glândulas de suor, raiva e paixão O CORPO
ESPIRRA SUA PRESENÇA. Não é o punho cerrado
que comprime os ossos do rosto numa briga simbolizando a repressão
que pode ser chamado de arma, mas a liberdade do uso do corpo
como arma emancipadora. Toque nos meus dedos, no meu rosto,
nos meus lábios, no meu peito, assim como a combinação
do perfume com o corpo. Não existe ilusão na
proximidade dos corpos, contanto que eles não sejam
mediados por imagens ou por desejos instruídos por
imagens do fetiche – hedonismo vagabundo e com objetivos
de consumo. Não se pode consumir a carne simplesmente
como produto pois a experiência é o mais importante,
como um fluxus sexual: o momento é tudo, ele não
pode ser pré-determinado nem planejado, deve ser executado.
O momento da realidade é um, o corpo é um e
a experiência como intermezzo de prazer, de sublimação
do antagonismo pré-existente entre os corpos também
é um, pois os corpos não devem se separar mas
adquirir experiência.
Destruição do tempo espetacular, ser novo, ser
velho que todos esses medos encarnados em Fausto vão
tomar no cu! Toda vez que nos prendemos na definição
temporal o medo da morte surge, como se não tivéssemos
tempo suficiente para fazer o que queremos. Medo resumido:
pessoas olhando serenamente como ovelhas num parque de diversões
de fetiches seus objetos de desejo, perdendo-se em imaginações
futuras sem o menor objetivo relevante a não ser o
da imagem residual como força de identidade –
uma busca que nunca vai terminar bem por levar o homem a fantasia
ligada pela sua imaginação de duração
eterna separada do corpo, que tem sua finitude marcada –
no mundo de hoje, não podemos deixar nos levar por
esperanças que nem mesmo possuem alguma garantia, são
brinquedos midiáticos que nos infantilizam.
Pense no boi processado e ingerido por você, estará
lá o fim?
A segunda revolução perfura os olhos.
E ele poderia dizer que não se importava, que estava
mentindo com seu olhar sem direção, disse que
não podia ver a beleza se não pudesse sentir
mais do que enxergar. Não era apenas essa superfície
doce e suave, era o aroma que mergulhava sua coragem num turbilhão
de incertezas.
Através desses olhos fixos e brilhantes abre-se um
precipício de onde não se pode escapar. Não
seria seu coração cedendo as artimanhas do cotidiano?
Onde uma pessoa o prende dentro de uma conversa magnética
e o transporta para dentro da escuridão da íris,
lá onde não se pode ver que forma tem todos
esses afetos que tomam seu corpo como um casulo.
São corpos atrativos.
Abismos que se unem através de uma conexão imaterial.
Dos meus olhos vejo no fundo dos seus olhos uma galáxia
particular escondida. Uma espécie de buraco negro que
suga minha curiosidade para dentro de um corpo alheio. Não
é apenas aquilo que olho, mas o que me observa mutuamente
explorando minhas carnes e meu caráter. Eu deveria
estar preocupado quanto a máscara que cobre meus músculos
através desse caráter? Talvez devesse ficar
preocupado quanto a maneira que olho os objetos ao meu redor
já que a primeira maneira de libertação
vem da carne, a visão contempla e projeta a arquitetura
sustentada pelos ossos da experiência. A experiência
do ver para muitos termina no tocar. Aqui procuramos simplesmente
ver, seja pelos olhos ou por outros sentidos o amadurecimento
da percepção que vem através do aprendizado
do olhar.
Como numa câmera de vigilância, quantas horas
são gastas de material gravado para que se tenha um
movimento relevante dos acontecimentos gravados? As provas
através da imagem são ficções
elaboradas através de incontáveis horas de submissão
do voyer. O efeito que borbulha em metabolismos está
no cruzamento do olhar. Ele não pode ser gravado, mas
vivido.
Imaginemos caminhar no centro de uma cidade grande, passos
largos, corpos em profusão, vozes que emitem transes
coletivos aos pedestres. Olhar nos olhos do desconhecido transmite
o contato em forma de agulhão, fere a pessoa e ela
se sente de alguma maneira excluída da massa de corpos
que passam diariamente por esse centro urbano. Ela sente um
tipo de evidência, mas não como geralmente pedestres
costumam olhar os outros com seus olhos desejantes e vulgarizados
pelo espetáculo, ser visto como alguém além
da massa de corpos e ao mesmo tempo olhar quem o observa.
Um alguém que encontra outro alguém. Não
se trata de uma simples experiência ocular. Trata-se
do fim da cegueira quanto a visão real. Significa enxergar
esse vazio que separa os corpos, as paixões e os desejos
incrustados em manuais de beleza e submissão. Perceber
todos os jogos de submissão sociais é a primeira
forma de aprender sobre o poder do olhar, nada de paranóias
e perseguições – já que elas próprias
são produzidas por quem vê – mas a importância
de delinear (mas não definir) as ações
cotidianas.
Qualidades como beleza, atrativo que suga o olhar de imediato,
pode ser um detalhe, qualquer detalhe. Ele expande para o
resto do corpo e é sugado pelos olhos novamente, tendo
uma sensação sublime da comoção.
Existe a visão química, mas também não
é dela que estamos falando, já que a própria
visão no dia-a-dia pertence a um tipo de combinação
química elaborada por quem vê e mediada por alguém
mais influente nos momentos de descanso. Esses olhares são
induzidos, são permeados de significados tautológicos
e funções morais. O olhar revolucionário
perfura os olhos e desmistifica a carne. Não há
mais aquela forma plástica que ostenta uma estética
vigente – a do supercorpo – mas a valorização
do corpo em si, como uma fonte de energia única, que
precisa ser explorada e conhecida por quem vê e por
quem é visto.
Não se pode mais deixar os olhos serem treinados pela
mente puramente mecânica. O olhar tem de ser autônomo
até que as órbitas sejam expulsas do próprio
corpo para que não se enxergue mais apenas com os olhos.
O corpo como percepção pura, mergulhado numa
interatividade de experiências diárias. “Se
teu olho te atrapalha, lança-o de ti”. A falta
de tato entre as pessoas afeta o olhar, como pessoas seguras
de si que olham outras pessoas mas não vêem nada,
apenas a si mesmos, percebe-se isso no momento da conversa
onde palavras não são mais que estrume jorrado
nos ouvidos do outro, palavras de ordem em forma de agrado:
típico discurso narcisista. São informações
que se confundem antes mesmo de serem percebidas, são
mastigadas e enfeitadas para que possamos consumi-las sem
nenhum tipo de sofrimento. E que tratamento é esse
que não deixa o ser humano viver? Consumir? E ainda
por cima sem nenhum tipo de sofrimento?
Olhar um ente querido no momento da sua morte, não
há maneira para descrever o sofrimento que isso pode
trazer, poderia até falar dos traumas que daí
surgem, mas isso não importa agora. Perceber é
essencial, porém mais importante ainda é perceber
o que é real, a experiência direta traz o aprendizado
satisfatório para se viver pois não há
punições simuladas, INSERT COIN sua vida num
jogo de muitas escapatórias e nenhuma solução.
Como o jogo do olhar com os animais, praticado por africanos
a fim de espantar os leões. O homem encara o felino
de frente e o olha fixamente transmitindo agressividade e
segurança, o leão não encara o jogo e
se sua fome não é maior que sua coragem, ele
desiste e vai embora.
Muitos corpos se ofendem com o olhar, com a relevância
que ele transmite. Ele está a me observar, o que tenho
eu? São muitas as sensações que despertam
esses dois pequenos buracos, que são passagens para
outros universos iluminados pelas pequenas órbitas.
Uma passagem de luz que é transmitida para uma outra
dimensão, imaterial e que fornece o magnetismo necessário
para que as pessoas se aproximem, se toquem, se despertem.
Embora o olhar possa induzir o tocar, deve-se compreender
que o ciclo não termina aí, não se trata
de uma experiência puramente material, ela desperta
a subjetividade das pessoas a fim de explorar seus mundos
imateriais. Diferente do voyer que isola o pensamento em si
mesmo, satisfeito de si e de sua grandiloqüência
estúpida por ser incapaz de transmitir sua subjetividade
através do olhar, ele não transmite, não
se conecta, apenas rouba e vampiriza, ele é dependente
de seu desejo patológico. Não se trata de eliminar
o olhar egoísta, não é nada fácil
disso sabemos deixar de olhar pra aquilo que nos agrada e
nos preenche de uma felicidade e uma satisfação
indescritíveis. O primeiro movimento é o do
corpo, a busca da emancipação, mas depois através
dos olhos TURN AROUND TURN AROUND vem a segunda revolução
para perfurar e preencher nossas angústias e medos
latentes.
Olhe pra mim e me diga, existe mesmo uma sensação
forte no olhar?
Depois desse abismo perder em distância material ele
se torna imaterial, pois não se trata mais de ver o
que temos fora uns dos outros, mas o que temos na mais pequena
delicadeza, nos interstícios dos movimentos das mãos,
dos braços, das pernas, do queixo, das palavras, dos
sentimentos.
O olhar afunda numa percepção maior, somos constantemente
percebidos e construídos em mentes alheias através
da lembrança. Vemos as coisas no mundo e cada vez que
a vemos de novo nós a modificamos, isso porque os momentos
obviamente são diferentes embora o objeto esteja lá
imóvel. Nos a modificamos porque elas nos modificam
pois não são objetos únicos, quer dizer,
não vemos apenas um objeto, eles estão ligados
uns nos outros numa construção que gera campos
de força. Uma arquitetura conjunta e maleável
disposta materialmente pela conjuntura do real e imaterialmente
pela nossa percepção que une emoções,
raciocínio e delírio.
O olhar revolucionário significa explorar as percepções
que se tornam presentes na nossa mente transmitindo-as para
a realidade. Tornar-se real.
A terceira revolução são ações-paixões.
O homem não deve expulsar o macaco de dentro do corpo,
deve deixá-lo livre correndo por parques temáticos,
divertindo-se com suas necessidades sexuais e lúdicas
como todo animal que vive dentro de seus instintos e seus
territórios na natureza.
Mas o homem difere desse macaco pois ele tem consciência
da transformação do mundo, tanto que historicamente
podemos observar as mudanças sociais e intelectuais
que passamos, nada mais óbvio. No entanto pensemos
nos cães de Canaã, uma das primeiras gerações
desse belo animal que vive conosco como companheiro tribal.
Muitos estudiosos atribuem a esse animal, o cachorro, uma
das grandes viradas na evolução do homem, a
ascensão do homo sapiens. O cão diversificou
a linguagem no homem, ele não é o ser domesticado
que tanto se prega, a domesticação foi mútua,
ele ampliou a forma do homem caçar e mesmo lutar com
outras gerações de humanos primitivos, ele se
fixou na casa do homem convivendo com as pessoas dentro de
casa. Esses mesmos estudiosos dizem que o cão aprendeu
com esse convívio a imitar o olhar da criança
tanto que sua ligação com a parte maternal da
família se tornou mais forte (o olhar doce e meigo
do cão quando é repreendido ou quando sente
fome), ele é um animal que torna mútua nossa
vida com natureza, aí está a chave para a terceira
revolução, a interação do homem
com o mundo aprendendo a regenerar as relações
primitivas com a natureza ao mesmo tempo não podendo
negar a condição do mundo contemporâneo
e a tecnologia que permeia nosso cotidiano.
Racionalismo e intuição brigam pela soberania
na mente do homem, se não se trabalha os dois ainda
estaremos fracassando quanto a esse dualismo do corpo/mente
de Descartes.
As ações-paixões são exercícios
do animal interagindo com o homem e vice-versa, da intuição
permitindo de possamos nos libertar dessa funcionalidade cotidiana
e do racionalismo entendendo sua limitação dando
espaço para essa intuição latente em
nós. Ele se levanta de manhã, toma banho, se
perfuma, penteia o cabelo, ajusta sua imagem residual e vai
para o trabalho funcionar dentro de sua função.
Trabalha, trabalha e trabalha. A noite desperta o animal dentro
de si e vai brincar em parques temáticos, sejam elas
festas, bares etc. Aí se vê o homem fugindo de
sua condição como homem, sendo máquina
pura de dia e sendo um animal tosco de noite, alguém
ainda tem dúvida do porque se vê tanta bebedeira
e destruição do corpo nas noites urbanas? Não
adianta redes de TV, jornais sensacionalistas e padres engravatados
mostrarem de maneira hipócrita as pessoas de noite
tomando seus entorpecentes tentando buscar uma justificativa
para a violência urbana, pois eles mesmos são
consumidores de entorpecentes, seja pelas doses maciças
de cafezinhos diários, seja pelos remédios emagrecedores
– anfetaminas corpolátricas – seja pela
imagem de Jesus que causa frenesi e busca pela cura divina,
tudo não passa de um escapismo através do outro
ilusório. Falta prestar atenção no outro
real, como as pessoas que amamos com seus defeitos e valores
positivos, assim também deveríamos prestar atenção
nas pessoas que não conhecemos, não pela sua
beleza temporal, mas pela sua condição humana,
a de sermos semelhantes e unidos nessa sociedade muitas vezes
pragmática.
Da mesma forma existe a natureza, relegada a uma mercadoria
pela industria turística, chega desse espelho mágico
que sodomizou Branca de Neve: “espelho, espelho meu...”,
ficar olhando para si mesmo procurando uma justificativa para
se orgulhar ou mesmo procurar se sentir seguro é um
sintoma de fraqueza, não se pode buscar apenas dentro
de si formas de melhorar o mundo assim como também
não se pode tentar buscar isso de maneira puramente
coletiva. Essa busca é interativa, seja ela através
do contato com outra pessoa, com a natureza ou mesmo com outros
animais, a busca na verdade nunca termina, ela está
encarnada na cobra que morde o próprio rabo, ciclicamente
nos deparamos com os mesmo problemas.
Chegamos a um cume das realizações de libertação
ontológica do homem, primeiro a carne prostituta em
busca da emancipação, segundo a percepção
penetrante na alma alheia como reflexo a condição
de si no mundo e em terceiro o movimento dos corpos, sejam
eles materiais ou imateriais. A terceira revolução
implica mais do que observar, refletir ou conhecer, significa
transformar a carne e o espírito, o fantasma da máquina
deve se tornar uma forma que seja visível e invisível,
deve deixar de existir apenas na imaginação
pra se tornar real, essa transformação só
pode acontecer através da experimentação.
Porém o que queremos dizer com experimentação?
Significa que a experiência ainda é a chave para
a construção (e conseqüentemente uma desconstrução
do que existia anteriormente em si mesmo) de um ser humano
mais dinâmico, o upgrade do macaco começa a fazer
efeito a medida que nos tornamos mais humildes em relação
aquilo que conseguimos aprender e criar dentro desse mundo.
Num primeiro momento temos que entender: os ensinamentos aprendidos
no dia-a-dia não podem ser considerados tautologias,
isto é, não são regras prontas iguais
a que aprendemos na infância escolar. O que você
aprende serve apenas para você, embora a experimentação
de que falamos seja dependente desse conhecimento primário,
é a partir daí é que devemos procurar
criar uma espécie de jogo de entendimentos. Como diz
o filósofo John Austin , o emprego da linguagem depende
de um contexto específico (circunstância), por
isso questões como verdade e falsidade não podem
ser determinantes, a medida que aprendemos devemos procurar
nos desvencilhar dos modelos pré-moldados e partir
para uma superação das regras sociais existentes.
Ninguém aqui está querendo fazer algum tipo
de apologia a violência ou ao roubo, nada dessas patologias
vagabundas. Devemos entender que as regras sociais são
regras de consentimentos, nos mostramos a favor de certas
relações mediante um preço a pagar devido
a resposta que podemos obter a partir disso. O problema está
em nos fixarmos nas regras sociais, dessa maneira todas as
relações se superficializam pois deixamos de
nos experimentar para automaticamente usarmos regras prontas
de convívio.
As ações-paixões são movimentos
e misturas de corpos, são transformações
que ampliam a condição humana nessa sociedade
tecnocrática. Homem e animal juntos, pois nunca estiveram
separados, mesmo que retrocedamos na história e vejamos
todas essas baboseiras de regras de etiqueta , superproduções
de vestimentas e doutrinas educacionais, nada disso consegue
suprimir a necessidade do macaco urbano em superar suas dificuldades
diárias geradas pela angústia. Estar apto a
lutar pela sua liberdade interna (fantôme), estar disposto
a libertar seus sentimentos por completo sem que ninguém
seja suficientemente cretino para julgar o que não
pode compreender por inteiro. Quem eles (quaisquer que sejam)
pensam que são para dizer o que eu sinto ou o que eu
devo fazer? Se eu vivo nesse mundo e partilho das mesmas fragilidades
físicas, posso compreender em parte o que se passa
ao meu redor, mas isso não determina que eu seja senhor
das ações totais no mundo, não posso
julgar ninguém senão a mim mesmo, limitado por
ser arrogante e cego o suficiente para afastar de mim os mendigos
e faxineiros, logo eles que limpam minha merda e fazem do
mundo um lugar menos fedorento pela podridão condimentada
nas minhas tripas, regurgitada e expelida em valas de cerâmica
branca.
Se eu sou o macaco do futuro, como todos os outros irmãos
e irmãs no mundo, devemos olhar para nós mesmos
sem essa pretensão mágica de tentarmos nos transformar
numa imagem fantástica de beleza cosmética,
pois sem esses atributos, somos pálidos e decrépitos,
somos tristes e frustrados sempre atrás de novas matérias
a fim de nos renovarmos visualmente.
Se toda essa pompa é uma necessidade virtual e sua
não-realização nos frustra é porque
não estamos sendo humildes o suficiente para entendermos
que a beleza parte de dentro da máquina, esse corpo
mole que nos sustenta. O espírito que envolve nossos
corpos é uma dupla ação da beleza, ela
sustenta imaterialmente nossa vontade de amar, de nos encontrarmos
em outros corpos, de querermos nos misturar num êxtase
divino e materialmente por termos nossas afinidades biológicas
(as ancas, os pescoço, os braços, as pernas,
o sorriso, o olhar ou mesmo o jeito de segurar uma bolsa).
Além dessas formas que compreendem atributos de nascença
temos também nossos brinquedos: perfumes, roupas, cortes
de cabelo, piercings, plástica cirúrgica...
Eles são como temperos na nossa alimentação
da experiência, mas não são tudo, são
como pequenos upgrades que valorizam jogos de sedução
e de certa forma, eu até arriscaria dizer, valorizam
nossa identidade, embora não sejam todos que possam
usufruir dessa experiência estética.
No mundo capitalista os recursos sempre se dão pela
posse, conseqüentemente aqueles que podem se sujeitar
aos jogos de sedução tão propagados em
revistas modernas e redes de TV tem de obter posses para jogar.
Felizmente isso é apenas uma visão unilateral
levada as últimas conseqüências pelo mass-media,
talvez pelo fato de eu mesmo ser um macaco ocidental. Existem
aqueles que criam seus próprios termos estéticos,
por isso para a nossa felicidade podemos acreditar concretamente
que julgar aparências é apenas um jogo de circunstâncias,
como foi dito antes sobre a linguagem: depende de um contexto
específico. Mas para as ações-paixões
amar é acima de tudo o principal tempero para o espírito.
Não importa que maneira esse amor se manifeste, experimentar
é acima de tudo a chave para a redenção,
um encontro de galáxias emocionais de diferentes lugares,
olho para você e sinto esse amor, essa paixão,
essa vontade de conhecer mais e mais. Mesmo que eu já
conheça você há muito tempo. Quero me
juntar as suas experiências e criar... e talvez essa
seja a palavra que procuramos para transmitir um sentimento
sublime: CRIAR CRIAR CRIAR.
As ações-paixões são fruto de
uma interminável necessidade de fundirmos experiências,
seja através de uma longa conversa, seja pelo abraço
forte. A carne influi na nossa interação dinâmica,
não é a toa que todo esse sistema espetacular
midiático se apóie tiranicamente na carne, expondo
a nudez ao nível mais predatório, pode-se ficar
rico dessa forma. Essa estratégia é apenas uma
maneira de nos transformarem em puros consumidores (pois já
não existe mais pátria, nem raça, nem
credo, tudo é resumido pelo consumo).
Isso é pouco, muito pouco para o ser humano. Somo feitos
de carne, apodrecemos diariamente disso sabemos, o que não
podemos esquecer são das forças que atraem essas
carnes, como isso se chamaria? espírito? Do que quer
que seja chamado ele se alimenta dessa experiência interativa,
com você, com os outros, com a natureza, com o mundo.
Por isso experimentamos até o limite dos sentimentos
o que é viver, seja pela felicidade, pelo sofrimento,
pela amargura, pela paixão, estamos sempre e para sempre
experimentando viver. |